Associação Brasileira de Cinematografia

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07.02.2013

Morre Stefan Kudelski, o inventor do gravador de som Nagra

Por Tide Borges, ABC

O cinema sonoro trilhou um longo caminho até que soluções técnicas e mercadológicas fossem encontradas para o seu total estabelecimento. A primeira solução encontrada foi a gravação em discos (de 1927 a 1932) que logo foi substituída pela gravação ótica, que depois foi substituída pela gravação magnética (começo dos anos 1950 até começo da década de 1980) e depois pela digital.  

A gravação magnética do som foi descoberta pelos cientistas alemães já na década de 1930. Foram eles que inventaram o Magnetofone, um gravador analógico que registrava as variações de tensão elétrica produzida pelo microfone numa fita de plástico na qual partículas de óxido de ferro, ali fixadas, se organizavam na sua superfície de maneira análoga às variações de tensão elétrica através de uma cabeça magnetizadora.

As vantagens da gravação magnética sobre a ótica eram enormes. A qualidade da gravação era superior à ótica, pois apresentava uma resposta maior para a gravação e reprodução de todas as frequências sonoras e para a amplitude dinâmica. As outras vantagens eram poder ouvir a gravação imediatamente depois dela ser feita (na gravação ótica era necessário esperar a revelação e copiagem do negativo) e a reutilização da fita magnética.

O Magnetofone foi aperfeiçoado durante a II Guerra Mundial e foi usado para gravar os discursos de Hitler para divulgação no rádio e gravação de concertos de musica.Somente com a invasão da Alemanha, em 1945, é que os aliados tiveram acesso ao gravador Magnetofone, até então um segredo de guerra. A partir daí, os americanos desenvolveram esta tecnologia para ser usada nos estúdios de cinema, fabricando os seus próprios gravadores (Ampex, Rangertone).

Mesmo substituindo a tecnologia da gravação ótica do som pela gravação magnética nas filmagens, usando gravadores como o Rangertone ou o Ampex, estes gravadores ainda eram grandes (por causa das válvulas usadas nos amplificadores)  e pesados (quase 30 Kg) e precisavam ser alimentados pela rede elétrica ou por geradores para manterem o sincronismo com a câmera, e continuavam sem mobilidade, para filmagens externas, estes gravadores eram transportados em caminhões

O NAGRA

Stefan Kudelski nasceu em Varsóvia, Polônia, em 27 de fevereiro de 1929. Com o começo da Guerra na Europa, em 1939, a família de Kudelski foge primeiramente para a Hungria, depois França e finalmente para a Suiça, em 1943, onde se estabeleceram. Stefan Kudelski conclui seus estudos na escola Politécnica da Universidade de Lausane, em 1948, quandosurgem os pequenos transistores que substituíram as válvulas nos equipamentos de som, possibilitando a construção de gravadores menores.

Em 1951, Kudelski desenvolve o primeiro gravador portátil de som em fita magnética, chamado Nagra I e funda a sua empresa Kudelski SA. O nome “Nagra” vem do polonês e quer dizer “vai gravar”.


Nagra I

Nagra I

Em 1953, Kudelski aperfeiçoa o seu invento, desenvolvendo o Nagra II, que usava pilhas para o funcionamento da parte eletrônica e um sistema de manivela, além de corda para alimentar a parte mecânica.


Nagra INC

Em 1958, Kudelski lança o Nagra III, um gravador com um sistema de velocidade estável, alimentado por pilhas, totalmente portátil. Inicialmente a sua produção foi direcionada para reportagens para rádio, mas, rapidamente, começou a ser utilizado em gravações para cinema. É preciso lembrar que as câmeras somente registravam as imagens, em película, e o som tinha que ser registrado em outro equipamento para ser sincronizado posteriormente na edição.


Nagra III

Como o gravador funcionava alimentado por pilhas comuns e as novas câmeras com uma bateria acoplada, era necessário inventar um sistema que sincronizasse a imagem ao som, já que nenhum dos dois motores funcionavam a uma velocidade constante. Em 1960, Kudelski desenvolveu o sistema “Pilotton” de sincronização para filmagem e em 1962 o aperfeiçoou com o sistema “Neopilot”.

Este sistema consistia em ligar um cabo entre a câmera e o gravador. Este cabo transmitia o pulso do motor da câmera, que era gravado na fita em forma de áudio em uma pista própria. Quando a fita era reproduzida, um sincronizador fazia com que o som gravado fosse reproduzido na velocidade em que a câmera havia filmado aquela cena, e entrava em sincronismo.

Ao mesmo tempo em que acontecia esta revolução tecnológica surgiu uma nova onda de documentários que desejavam captar uma realidade cotidiana construída de imagens e sons sincrônicos. Em 1956, surge na Inglaterra o Free Cinema, movimento do qual faziam parte Lindsay Anderson, Karel Reisz, Tony Richardson e Lorenza Mazzetti. Este movimento fazia filmes de baixíssimo orçamento que eram produzidos em 16mm e retratavam a classe operária inglesa e evitavam o uso do comentário em voz over.

Entre 1958 e 1959, influenciados pelo Free Cinema e pelo fotojornalismo de Henri Cartier-Bresson  foram produzidos alguns programas para a televisão canadense, filmados em locação, usando equipamentos leves e que registravam eventos ordinários da vida canadense. Este movimento foi denominado de Candid Eye e seus participantes eram Terence Macartney-Filgate, Michel Brault e Ron Alexander, dentre outros. Em 1958, nos EUA, Robert Drew, editor e correspondente da revista Life, fundou a Drew Associates para fazer documentários.

Drew não queria fazer documentários com entrevistas em estúdios, nem usar uma voz over do comentário que explicasse o filme como uma palestra ilustrada. Ele iniciou um movimento que ficou conhecido como Direct Cinema. Participaram deste movimento Terence Macartney-Filgate (do Candid Eye canadense), D. A. Pennebaker, os irmãos Albert, David Maysles e Richard Leacock.

Leacock havia trabalhado como operador de câmera em Louisiana Story (1946), de Robert Flaherty, um documentário com som sincrônico com equipamento pesado, e depois em reportagens para a TV, usando equipamentos leves. Ele estava interessado em descobrir soluções para o problema de filmar com som sincrônico e com uma câmera mais móvel.

Para resolver o problema do ruído da câmera e da fonte de energia a solução encontrada pelos americanos foi voltar a usar uma antiga câmera blimpada 16mm da década de 1930, a Auricon, e fazer uma adaptação para que fosse utilizada uma bateria portátil. Foi com esta câmera e um gravador Nagra III que em 1960 foi filmado Primary.

Primary (1960), de Robert Drew, foi o primeiro documentário feito nos EUA em que as novas condições tecnológicas permitiram uma filmagem com mobilidade e som sincrônico. Eles conseguiam, por exemplo, filmar com a utilização de som sincrônico candidatos em campanha no meio da rua ou em uma viagem de carro.

Os filmes do Cinema Direto desencadearam uma discussão sobre o surgimento de uma “estética do real” no cinema documentário. A sensação de autenticidade era acentuada devido ao fato da câmera nunca ficar em um tripé; ela estava sempre no ombro do fotógrafo e os enquadramentos ficavam, às vezes, tremidos. O som, que captava a fala sincronizada dos personagens, trazia, no registro dos gestos e da oralidade, o universo das línguas faladas que o cinema documentário não tinha tido acesso até então, além de transmitirema sensação do “estar lá” para o espectador.

O fascínio que esta nova possibilidade do som sincrônico exerceu no Cinema Direto foi tanto que nesta época foi adotado um método denominado shoot for sound, ou seja, o som direto deveria dirigir a imagem. Foi quando algumas equipes adotaram o uso do fone de ouvido pelo operador de câmera. Na montagem, a imagem só seria aproveitada se o seu som sincrônico tivesse alguma importância.                                                                                

Em 1959, Jean Rouch, que já havia realizado vários filmes etnográficos na África, conheceMichel Brault, canadense que havia participado do movimento documentarista Candid Eye utilizando câmeras leves e som sincrônico. Rouch convidou Brault para fotografar Crônica de um Verão, que filmou comEdgar Morin no verão de 1960 em Paris. Crônica de um Verão foi o primeiro filme documentário feito na Europa com equipamento leve e som direto e foi deflagrador do movimento chamado Cinema Verité ou Cinema Verdade.

Rouch participou do desenvolvimento do “grupo sincrônico cinematográfico leve”, isto é, do desenvolvimento do protótipo de uma câmera 16mm silenciosa e alimentada por bateria, aKMT Coutant-Mathot Eclair, mais leve que a câmera americana Auricon que, juntamente com o gravador Nagra III e o sistema Pilotton de sincronismo, tornou possível filmar com som sincrônico Crônica de um Verão. Esse protótipo de câmera evoluiu para os modelos Éclair NPR 16mm e depois Éclair ACL 16mm.


Jean Rouch

Esses movimentos de renovação da estética do cinema documentário eram baseados na possibilidade da gravação do som sincrônico. Não interessava mais a “interpretação criativa da realidade”, havia uma necessidade de ouvir o registro do som da realidade: o som ambiente e o som da fala das pessoas que participavam dos filmes.

O Nagra III revolucionou a maneira de gravar som para cinema pela sua qualidade de gravação e portabilidade e, juntamente com o desenvolvimento de câmeras silenciosas e mais leves e de filmes que necessitavam de pouca luz, reuniram as condições para a realização do sonho de muitos realizadores e de muitos documentaristas: uma equipe pequena, com equipamento leve que pudesse se deslocar rapidamente e filmar, com som sincrônico, em qualquer lugar e com custos bem mais baixos.

Todo esse avanço tecnológico e consequente a mudança na estética da linguagem cinematográfica só era possível com filmagens em 16mm. As câmeras 35mm permaneceram ruidosas e com necessidade de uso de “blimp” (pesado artefato colocado em volta da câmera para atenuar o seu ruído) até meados da década de 1980. Para usar uma câmera na mão com som direto, ou você dublava o filme ou usava as câmeras silenciosas 16mm e ampliava o filme para 35mm depois.

Em 1961, Joaquim Pedro de Andrade viaja para a França e EUA e conhece o Nagra III e as novas câmeras silenciosas 16mm e incentiva a aquisição desses novos equipamentos para o Brasil.


Joaquim Pedro de Andrade com a Auricom e David Mayslescom o Nagra III

O Nagra III chegou ao Brasil em novembro de 1962 para o Seminário de Cinema ministrado por Arne Sucksdorff no Rio de Janeiro e posteriormente serão feitos vários filmes com som diret no Rio de Janeiro com ele. Em São Paulo,Thomaz Farkas compra um Nagra III em 1964 e realiza os 4 primeiros documentários da Caravana Farkas com som direto. 


Thomaz Farkas e seu Nagra III em uma foto de 2004

Fato curioso: de todos os equipamentos adquiridos naquela época, Thomaz Farkas, um fotógrafo, só havia guardado o Nagra III.

Na década de 1970, foram desenvolvidos motores com velocidade constante para as câmeras e os gravadores (os motores de velocidade controlada por cristal de quartzo) e o cabo de sincronismo entre a câmera e o gravador foi finalmente abolido, aumentando ainda mais a mobilidade para a câmera e o som.

Os gravadores Nagra, com versões que foram sendo aperfeiçoadas (IV - década de 1960, Nagra 4.2 e IV-S – década de 1970) foram equipamentos considerados padrão em todo o mundo para gravação de som sincrônico para cinema e foram usados do começo da década de 1960 até o começo da década de 1990. Muitos filmes já utilizaram alguns desses gravadores como objetos de cena. A Conversação (1974, dirigido por Francis Ford Coppola), Um tiro na noite (1981, dirigido por Brian de Palma), A vida dos Outros (2006, dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck).

Da década de 1990 até os nossos dias começou-se a usar a tecnologia digital para gravação de som para cinema e outros fabricantes entraram no mercado, acabando coma a hegemonia da Kudelski nessa área.

Hoje em dia, com a popularização na produção de documentários das pequenas câmeras digitais que gravam imagem e som já sincronizados, muitos dos seus usuários nem imaginam todas as dificuldades técnicas que foram transpostas e as transformações estéticas ocorridas desde o início do cinema sonoro para se chegar ao que hoje parece tão corriqueiro: um equipamento portátil que possibilite a gravação de imagens e sons sincrônicos.

Outra característica dos equipamentos fabricados por Kudelski era a sua robustez, uma maneira de pensar um produto que infelizmente não existe mais: os gravadores Nagra eram feitos para durar – carcaça de aço inox, contatos de ouro, componentes internos modulares e de altíssima qualidade, cabeças de gravação e reprodução super precisas. Um gravador para funcionar em qualquer condição climática e que resistia a tombos, água e ao tempo.

É então que, com tristeza, recebemos a notícia da morte de Stefan Kudelski, aos 84 anos, no dia 26 de janeiro de 2013, o homem que com a sua invenção de um gravador portátil revolucionou o cinema mundial e deixou sua marca como sinônimo de qualidade e durabilidade.

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