Associação Brasileira de Cinematografia

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31.03.2011

A arte da correção de cor

Coloristas falam sobre a profissão e suas trajetórias profissionais

Por Danielle de Noronha

O colorista adquire com o tempo a arte da correção de cor. Sem cursos para a capacitação profissional, uma das maneiras de entrar nesta carreira é sendo assistente daqueles que já trabalham como coloristas há muito tempo. Como por exemplo, de Ely Silva, que está na área há mais de 20 anos, e já ajudou na formação de mais de 15 profissionais.

Seu primeiro trabalho como colorista foi em 1990, na New Vision, uma das percussoras do Cine VT, ou seja, a finalização digital de comerciais captados em película. Como o mercado ainda se adaptava a este novo formato, para aprender, ele precisou de “uma dose muito grande de empirismo, muito estudo e dedicação”. Ely relembra que em 1989, a empresa comprou um telecine Ursa: “uma revolução para a época porque já tinha incorporado a tecnologia de telecinar o negativo e fazer marcações de luz. Eu fui o primeiro colorista da casa e talvez do Brasil neste novo modelo de trabalho”, conta.

Há 16 anos, foi assim que Marco Oliveira começou a sua carreira. Marco diz que os fabricantes das plataformas de correção de cor ofereciam um treinamento para ensinar a trabalhar nos equipamentos, mas lembra que a questão de conceito não se aprende assim. “O único jeito de se aprender mesmo era trabalhando com coloristas mais experientes e o mais difícil não é o operacional da coisa, é desenvolver o seu olhar”, explica.

Cada trabalho, seja entretenimento ou publicidade, ajuda nesse desenvolvimento do olhar. Os desafios técnicos e estéticos mudam conforme o tipo de filme e o cliente. Para se especializar nessa área, não há outro jeito, a não ser “trabalhando todos os dias”, como afirma João Theodoro, que iniciou sua carreira em 1994.

Na pós-produção, o colorista é o grande parceiro do diretor de fotografia. Theodoro explica que é importante o intercâmbio entre ambos, pois “geralmente o colorista entra no projeto às vésperas do color grade, então a interação com o diretor de fotografia, que já está no filme desde o começo, é importante para entender o que aconteceu e o que precisa ser feito”.

Para Marco, o colorista precisa na teoria ser um fotógrafo: “temos que conhecer negativo, linguagem cinematográfica e, mesmo que eu não consiga exercer a função dele, eu tenho que falar a mesma língua que ele. Também é importante o conhecimento em pós-produção, pra conseguir interpretar o que o cliente quer da imagem. Por isso há muita cumplicidade do colorista com o fotógrafo”, finaliza. Ely complementa: “tento aplicar meus conhecimentos de imagem e das ferramentas que tenho à disposição para reproduzir, melhorar ou manipular de uma forma que fique harmonioso, belo e diferente a imagem que ele produziu”.

A correção de cor na era do digital

A tecnologia trouxe algumas adaptações para a profissão. Marco conta que com o surgimento de novas câmeras de captação em vídeo, como a Red, começaram a aparecer plataformas digitais exclusivas para tratamento de vídeo. Além de baratear o custo, já que o trabalho no telecine e o próprio equipamento são bastante caros, alterou a forma do trabalho do colorista, que deixou de ser apenas operador para se tornar também um consultor: “está cada vez mais comum colorista participar da pré-produção. Às vezes, um detalhe simples de figurino e até de iluminação faz uma grande diferença pra gente depois. Além de ser necessário que a gente sempre se atualize nas novas plataformas e câmeras lançadas no mercado, precisamos saber quais são os codecs, o formato em que elas gravam, etc.”.

Para Ely, “obviamente quando se capta a imagem com película, toda a informação, textura, latitude e consistência da imagem são melhores. Com o digital é preciso cuidar melhor da correção de cor, aplicar técnicas de texturização e estilização para fazer uma imagem com algum diferencial. Para isso são necessários outros equipamentos, diferentes dos que temos no telecine, como Pablos, Lustres, Scratchs, entre outros”.

A evolução tecnológica também trouxe outras mudanças. Hoje, há uma nova forma de aprender o trabalho. Está muito fácil adquirir algum software de correção de cor e, com isso, estão surgindo mais coloristas autodidatas. “São pessoas que nunca entraram num telecine, que não possuem conhecimento prévio, mas que tem interesse, baixam o programa, aprendem e já estão até se vendendo como coloristas. Tem gente talentosa, mas nada que se compare com a experiência e a vivência dentro de um telecine”, fala Marco.

Para finalizar, Theodoro acredita que a correção de cor, quando bem sucedida, agrega valor ao filme, mas não tem o poder de salvar obras ruins: “se o filme é fraco em roteiro, diálogos, atores e direção, ele já chega morto pra correção de cor, não há nada o que se possa fazer”.

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